Reflexões sobre o romance de Ytanajé Cardoso por meio do pós-colonialismo.
- Isadora Lopes

- 6 de mar. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2024
O romance Canumã: a travessia (2019), escrito por Ytanajé Cardoso, aborda as vivências do povo munduruku em uma região banhada pelo rio Canumã, no Amazonas. É narrado pelo personagem Filipe, que tem proximidade com a família de seu tio Antônio. Ele se muda para Manaus com os seus tios e primos, com a finalidade de que os mais novos possam estudar. Assim, o protagonista segue carreira acadêmica, cursando faculdade e mestrado em Antropologia. No final do livro, ele retorna à aldeia para comparecer ao funeral do seu avô, um dos últimos falantes da língua nativa.
Canumã: a travessia (2019). - Acervo: Amazon.
Nesse contexto, os anciãos são considerados a maior fonte de sabedoria, repassando esse saber por meio de narrativas orais. A obra também aborda questões como o apagamento da língua munduruku, em que as gerações mais novas já não falam a sua língua materna e sim o português, problema decorrente do período de colonização, com a chegada dos missionários, que impuseram a língua portuguesa, sua religião, cultura, entre outros costumes, em detrimento do que era cultuado pelos nativos. Diante disso, esse texto visa estabelecer um diálogo entre o pós-colonialismo e a escrita indígena.
Segundo a ensaísta Inocência Mata (2016, p. 41 apud Santos e Meneses, 2009, p.11) :
[...] os estudos pós-coloniais apresentam-se-me como campo de teorias e formulações conceituais diversificadas que se aproximam pelos postulados Internacionalmente contra-hegemônicos, ou, como alguns preferem, formulações epistemológicas do Sul, que têm em conta o contexto sócio-político da produção e reprodução do conhecimento.
Nessa perspectiva, a teoria pós-colonial questiona o cânone, que é o que se mede, no sentido de que obras escritas por autores de países mais ricos são uma “régua” para definir se obras do Sul global, oriundas de países em desenvolvimento, são válidas, se são consideradas uma “alta literatura” ou se são inferiores ao que se chama de literatura universal. Leva-se em conta o contexto, de onde se fala, também envolve a política nesse estudo. Dessa forma, Inocência Mata traz uma diferente perspectiva sobre os estudos literários sócio-culturais, relacionando-os aos aspectos extratextuais que expressam uma realidade vivida por quem escreve. Mesmo escrevendo uma ficção, há realidade histórica naquele texto que, de alguma maneira, vai ser apreendida pelo leitor.
O pós-colonialismo busca analisar a sociedade tanto durante a colonização quanto os efeitos decorridos dela, que persistem até hoje, como o apagamento etnolinguístico do povo munduruku, questão exposta no romance de Ytanajé Cardoso. A seguir, um trecho da obra:
“[...] muitos povos indígenas hoje estão tentando revitalizar a língua tradicional. É uma forma de contestação simbólica por uma perda involuntária. Talvez o sentimento de honra esteja regulando esse movimento. A honra em si já é o próprio espírito da contestação [...]” (2019, p. 104).
O romance de Ytanajé Cardoso traz críticas aos estereótipos e estigmas criados pelo colonizador sobre o colonizado, bem como a necessidade de lutar pelo reconhecimento e preservação da cultura indígena. Nesse sentido, a luta pela revitalização da língua munduruku é um meio de combater a perda desses costumes.
Para o crítico literário Benjamin Abdala Junior (2016, p. 71) :
A primeira consideração que nos parece fundamental na análise comparatista é a necessidade de o crítico ter consciência de seu lócus enunciativo, o lugar de onde ele acessa o mundo. [...]
O lócus enunciativo é de onde se fala, nesse caso, é o lugar como autor indígena. O fato de um romance, considerado um gênero textual de maior relevância em países do Norte global, ser escrito por um nativo, é trazer a perspectiva dos povos indígenas além dos estereótipos vistos em obras do Romantismo, como em Iracema, de José de Alencar, que apresenta uma personagem indígena com caraterísticas típicas de romances europeus, tendo em vista a influência da Europa no processo de formação da Literatura Brasileira. O pós-colonialismo visa dar voz a outras formas de analisar a sociedade, ao invés de ignorar os estudos de teóricos considerados parte da "alta literatura". Portanto, Canumã: a travessia (2019) é uma forma de quebrar essa hegemonia de autores do Norte global sobre os do Sul global.
Autoria: Isadora Lopes de Souza (Bolsista PAIC)
Referências bibliográficas:
CARDOSO, Y.C. Canumã: a travessia. Manaus: Editora Valer, 2019.
MATA, I. Localizar o pós-colonial. In: GARCÍA, F.; MATA, I. (orgs.). Pós-colonial e pós-colonialismo: propriedades e apropriações de sentido. Rio de Janeiro: Dialogarts Publicações, 2016. p. 32-50.
ABDALA JUNIOR, B. Pós-colonialidade e comunitarismo supranacional: eurocentrismo e novas perspectivas teóricas e críticas. In: GARCÍA, F.; MATA, I. (orgs.). Pós-colonial e pós-colonialismo: propriedades e apropriações de sentido. Rio de Janeiro: Dialogarts Publicações, 2016. p. 71-87.








Ótima análise!!