Entre a oralidade e a escrita na Literatura Indígena
- Isadora Lopes

- 22 de set. de 2024
- 3 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2024
Dando continuidade ao estudo do romance de Ytanajé Cardoso, "Canumã: a travessia", trago resultados de leituras realizadas ao longo do meu projeto de iniciação científica. Esse texto tem como foco o estudo de autores amazonenses sobre a oralidade na escrita indígena.
Segundo Delma Pacheco Sicsú (2022, p. 108) “[...] A literatura oral para os indígenas é muito importante, pois, por meio dela, eles atualizam as memórias, resguardam todo o saber ancestral, a tradição, as lutas e resistências de cada nação indígena. [...]”. O narrador oral é uma figura central na manutenção do saber e cultura do seu povo, tendo em vista o apagamento dessa história pelos colonizadores, tornando o indígena o protagonista de sua própria história. Pode-se observar isso na passagem em que Filipe fala sobre o cacique Nunito, que discursa no Festival Cultural Munduruku e Sateré-Mawé:
[...] Sempre com o semblante intrépido, talvez herança de seus ancestrais, olhava para um lado para outro antes de proferir qualquer palavra. Sua voz era grossa, estrondava ao falar. Sempre discursava na língua munduruku antes de falar em português. Fazia questão de lembrar que a língua do povo é a língua munduruku [...] (Cardoso, 2019, p 78).
Desse modo, para Sicsú (2022, p. 115) “ao escrever sua história, os povos indígenas quebram estereótipos reverberados ao longo dos séculos, como a ideia de que são eles pessoas do passado e incapazes de produzir conhecimento”.
A literatura indígena, portanto, ao transpor esses saberes orais para o texto escrito, ressalta essa herança de gerações passadas. Márcia Wayna Kambeba (2018, p. 40) afirma que “a escrita assim como o canto, tem peso ancestral. Diferencia-se de outras literaturas por carregar um povo, história de vida, identidade, espiritualidade.” Esse pensamento é exposto na fala de Filipe:
O grande interesse dos antigos é passar seus conhecimentos a quem quer que seja, sobretudo aos mais jovens, os quais deveriam absorver a história dos antepassados, assim como era feito antes do Serviço de Proteção ao Índio (Cardoso, 2019, p. 51).
Nesse contexto, a escrita é um meio de resistência, estando impregnada de “simbologias e referências coletadas durante anos de convivência com os mais velhos, tidos como sábios e guardiões de saberes e repassados aos seus pela oralidade.” (Kambeba, 2018, p. 40).
Ademais, a espiritualidade é retratada em Canumã, em que o autor apresenta Karosakaybu como uma figura central na origem do povo munduruku, destacando a descaracterização dessa entidade durante o Período Colonial:
Karosakaybu foi quem deu início ao povo munduruku. É perceptível que essa entidade suprema tenha sido descaracterizada à época da colonização, assim como o foram inúmeras manifestações artísticas (Cardoso, 2019, p. 99).
Esse trecho dialoga com o estudo do próprio autor, que, ao refletir sobre a religiosidade munduruku, aponta como os signos ideológicos do cristianismo passaram a dominar o culto à religião, reduzindo a crença em Karosakaybu a um simbolismo cultural:
E é por isso que o termo “religiosidade munduruku ancestral” se justifica, pois, atualmente, a religiosidade munduruku é predominantemente cristã. No entanto, a força de crença em Karosakaybu existe, mas não é religiosa, e sim simbólica do ponto de vista da identidade cultural [...] (Cardoso, 2023, p. 86).
Não obstante, Cardoso reflete sobre como essa representação não sagrada de Karosakaybu persiste a moldar as práticas culturais munduruku, transformando-se em um elemento da espiritualidade cotidiana (Cardoso, 2023, p. 86). Essa mudança pode ser vista como um impacto da colonização, à medida que, ao apagar aspectos religiosos dos povos indígenas, influenciou no processo de uma nova identidade cultural para o povo munduruku, na qual Karosakaybu permanece como um símbolo soberano, mas desvinculado de uma prática religiosa como era de costume.
Autoria
Isadora Lopes
Licencianda em Letras-Língua Portuguesa
Acadêmica do oitavo período vespertino
Referências
CARDOSO, Y.C. Canumã: a travessia. Manaus: Editora Valer, 2019.
SICSÚ, D. P. O encontro das águas da literatura indígena no Amazonas: entre a oralidade e a escrita. In: PEREIRA, A. V. (Org.). Reescrevendo a terra à vista: a literatura de autoria indígena amazonense em destaque. Porto Alegre, RS: Editora Fi, 2022, p. 105-125.
KAMBEBA, M. W. Literatura indígena: da oralidade à memória escrita. In: DORRICO, J.; DANNER, L. F.; CORREIA, H. H. S.; DANNER, F. Literatura indígena brasileira contemporânea: criação, crítica e recepção. Porto Alegre: Editora Fi, 2018, p. 39-44.






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