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A voz silenciada que ecoa na luta pela liberdade de seu povo

  • Foto do escritor: Milena Coelho
    Milena Coelho
  • 23 de mai. de 2024
  • 3 min de leitura

Deolinda Rodrigues nasceu em Catete, Angola, em 1939. Filha de um casal de professores, seu pai desempenhava tanto funções docentes quanto as de pastor evangélico. A região natal de Deolinda sempre foi cenário de revoltas, e por esse motivo, desde criança, ela se revoltou contra a vida de miséria, exploração e violência, forjando uma profunda identidade patriótica.


Foi com seus pais que Deolinda realizou seus primeiros estudos, mas tempos depois eles passaram a residir fora de Luanda e ela e seus irmãos ficaram aos cuidados de Dona Maria da Silva, sua tia e mãe de Agostinho Neto. O ambiente em que viviam era familiar e haviam estudantes de diversos níveis escolares, compartilhando seus conhecimentos.


Deolinda Rodrigues com os pais e irmãos, é a primeira a contar da esquerda. Imagem retirada do ''Diário de um Exílio sem Regresso''.

Na década de cinquenta os jovens, entre eles Deolinda, formaram Grupos da Juventude na Missão Evangélica, utilizando essa fachada religiosa para realizar atividades políticas. Eles organizavam publicações e panfletos que eram espalhados por toda a cidade, com o objetivo de despertar o sentimento patriótico e conseguir mais aliados para a causa.


Desde muito jovem, Deolinda escrevia, explicando situações que faziam parte do cotidiano dos jovens angolanos. Seus escritos abrangiam temas presentes no bairro em que vivia, que era cercado por prostituição, e também explicavam aos estudantes a distorção dos fatos que o governo português fazia para obter a colaboração dos angolanos. Dessa forma, Deolinda ganhava destaque e influência entre os jovens, incentivando-os a se solidarizarem com seus irmãos colonizados, e não com os opressores que lhes roubaram sua pátria.


Segundo relatos presentes em "Cartas de Langidila e Outros Documentos," todos que conheceram a poetisa afirmaram o quanto ela era uma mulher decidida que defendia com rigor seus ideais políticos. Então, não muito tempo depois da formação do MPLA (Movimento Popular de Libertação de Angola), ela ingressou ao grupo, tendo como tarefas realizar reuniões, explicar os princípios do Movimento, traduzir documentos de português para o inglês ou vice-versa, preparar panfletos e viajar para o interior em busca de contatos.


Em 1959, obteve da Missão Evangélica uma bolsa para estudar Sociologia no Brasil, mas depois de um ano estudando, foi obrigada a sair porque os governos de Portugal e Brasil assinaram tratados de extradição. Então, foi para os Estados Unidos finalizar seus estudos.


Em uma carta escrita para seu companheiro Ismael, percebe-se como sua personalidade se destacava por ser revolucionária e colocar os interesses coletivos acima dos seus pessoais. Segue um trecho desses relatos encontrados:

(...) Concordo que o momento actual não é de estudos mas sim de luta. Esta é a hora de sacrifícios pessoais e coletivos, é a hora de altruísmo para os que estão dentro e fora de Angola, dentro e fora de África e a hora de viver o amor que todos nós sentimos pela nossa Pátria. A verdade actual é: ou restauramos a dignidade humana em Angola, ou desapareceremos todos porque ninguém pode viver indiferente às condições tão desumanas que nos desafiam em Angola.

O que vemos acima é uma profunda dedicação de Rodrigues aos interesses do povo angolano, destacando seu compromisso com a luta pela liberdade e dignidade de Angola. Ela enfatiza a importância do sacrifício pessoal e coletivo, demonstrando seu altruísmo e a prioridade que dá à causa nacional sobre interesses individuais. Sua mensagem é clara: a restauração da dignidade humana é questão de sobrevivência, e a indiferença não é opção. Deolinda inspira os outros a fazerem o mesmo que ela, colocar os interesses do povo acima dos seus próprios.


Deolinda não finalizou sua carreira, pois decidiu regressar à África e dedicar-se à luta. Desempenhou diversas funções, sendo a primeira mulher a fazer parte do Comitê Diretor do Movimento. Em 1962, ajudou na criação da OMA (Organização da Mulher Angolana), onde passou a liderar diversas missões dentro desta organização.


Em Brazzaville, deu atenção aos refugiados, trabalho que executava sempre que podia. Organizou aulas de alfabetização, era conhecida por amar crianças e trabalhou como locutora no programa radiofônico do MPLA, "A Voz de Angola Combatente."


Devido ao contexto da época, os grupos a favor da libertação de Angola se enfrentavam, a UPA (União das Populações de Angola) era um grupo guerrilheiro inimigo do MPLA. Por esse motivo, enquanto participava dos treinamentos de guerrilha em Kabinda, em março de 1968, quando retornava de uma missão na selva, ela e mais quatro integrantes da OMA foram capturadas, torturadas e esquartejadas vivas pelo grupo adversário.


Deolinda abdicou de seus sonhos e aspirações pessoais pelo sonho coletivo de tornar Angola livre das amarras colonialistas e de todas as repressões. Sua voz foi silenciada muito cedo e abruptamente, mas a guerrilheira e escritora tornou-se uma grande heroína, incentivando seu povo a lutar pelo ideal nacionalista. Sua vida é um testemunho de coragem e paixão pela liberdade.

 
 
 

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