O contraste lírico presente em "Sacrossanto Refúgio" (1996), de Amélia Dalomba
- Moara Brandao Xavier
- 17 de ago. de 2023
- 3 min de leitura

Amélia Dalomba (1961), um dos rostos visíveis da literatura angolana surgida na década de 80, grupo esse lembrado por tematizar a desilusão e a angústia geradas pela guerra civil em Angola, na chamada "Geração das Incertezas". A escritora projeta uma visão escura da realidade ao revelar a desilusão com a nova independência que culminou em uma guerra contínua agora civil, em paralelo a isso movimentando em seus cantos poéticos as controvérsias e anseios do "ser mulher".
Percebemos esse contraste em seu livro Sacrossanto Regúfio (1996), que possui 18 poemas, a obra se faz presente também em sua Antologia (2017). Dalomba se divide em exprimir seus cantos poéticos enquanto lírica intimista feminina, assim como em reafirmar suas raízes em relação ao contexto que marca essa época anterior ao ano de 2002, uma ambientação de guerra civil. Nota-se o poema Eu Sei da autora angolana contemporânea, presente no livro enquanto uma composição lírica que expressa uma profunda intimidade e sensibilidade em relação a um encontro com o eu lírico e outra pessoa, podendo ser um amante:
EU SEI
Tanta ternura no ar
sinto
oiço
vejo
o homem em ti chegar
tocar, sentir, deixar em mim o rumo certo
(DALOMBA, 1996)
Percebemos a presença dos versos soltos no canto poético da autora, o que caracteriza o poema enquanto obra contemporânea, que visa romper as convenções tradicionais estilísticas no âmbito da literatura. Com o intuito de exprimir um cunho erótico, também há uma possível conexão emocional entre o eu lírico e o “homem” mencionado no poema. Consideramos também os espaços presentes na estrutura, que podem exalar a ideia de compasso do pensamento do eu lírico ao se deparar com a situação. E por último o verso “tocar, sentir, deixar em mim o rumo certo” que podemos interpretar de maneira ambígua - pode ser entendido tanto como certeza e segurança em relação a experiência narrada, como realmente à uma orientação de caminho após o encontro.
No mesmo livro, temos o poema Desencanto, que com uma lírica de denúncia, desconstrói a ideia em torno de uma região elitizada da África do Sul, conhecida como “Sun City”, considerada “Las Vegas” da África, com cassinos e luxuosos hotéis:
DESENCANTO
Bradam desejos díspares a cada passo
Sun City esplêndida de cascatas fantásticas encanta
as águas brotam de alicerces humanos?
outrora sangue terão brotado pedras
quantas almas
quantos pretos terão perecido
para elevar-te palácio às alturas
negras andorinhas, pardos melros
sobrevoam rentes aos elefantes de pedra
quantos lençóis de sangue
quantos corpos de pretos
digam-me pedras, quantos?
(DALOMBA, 1996)
O poema apresenta uma imagem de "Sun City" como um local esplêndido e encantador e logo em seguida revela os "desejos díspares" que o acompanham, sugerindo uma dicotomia entre aparência e realidade, sonho e desencanto. Durante todo o poema, percebemos a marca nos versos em perguntas retóricas como em "as águas brotam de alicerces humanos?" e “digam-me pedras, quantos?”, sendo assim um meio de reiterar a reflexão a partir do uso de metáforas que questionam a origem e a sustentação da beleza do lugar. Ao questionar “quantas almas/ quantos pretos terão perecido/ para elevar-te palácio às alturas” Dalomba destaca a exploração humana enquanto condição para construir a famosa “Sun City”. Em suma, o poema “Desencanto” é um exemplo de discurso de denúncia à beleza superficial de um lugar, levantando questões sobre sua origem e à condição que Sun City foi estruturada.
O GEPECCA (Grupo de Estudo e Pesquisa em Estudos Comparados, Crítica e Africanidades) possui um vasto acervo literário de obras da Amélia Dalomba e sua literatura angolana contemporânea e, através do blog enquanto espaço interativo, temos o intuito de divulgar poemas selecionados!






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