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Indicação de leitura

  • Foto do escritor: Lethicia Bernardino
    Lethicia Bernardino
  • 11 de out. de 2022
  • 2 min de leitura

Livro de poesia Lágrimas e laranjas, da escritora angolana Maria Alexandre Dáskolas (2001).



Uma quinda de laranjas sobre a mesa.

Pacaças passam a galope, o chão treme

e ressoa como batuque.

Os elefantes tão perto bebem água.


De repente rolam as laranjas ao chão.

Silêncio - quedaram as árvores solitárias,

na paisagem, entretanto, nua.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 13)


Filhas do Império

escondem o mistério

dos corpos ondulantes

das sereias

e dos seus caprichos.

Caminham soltas


pelas ruas de Lisboa

como pássaro em gaiola

aberta.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 15)


Um pedaço de papel

a preto e branco

ou a cores

pode secar as lágrimas.

Como a fitinha de Nosso Senhor

do Bonfim

vencer um desejo.


Tão simples e no entanto

nao sei que nome dar

a este impossível.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 17)


Quando não há mentira

mas a razão no mistério,

como na mais antiga loucura,

nem os meus cabelos brancos

me impedem de ser grega

ao abrir a caixa do correio,


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 18)


Continuas a transformar

uma abobrinha

num leque de plumas

do século XVI.

e as prendas que ofereces

são cantares dos teares

que despertam as musas

da poesia.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 36)


Escoa-se toda a chuva

num dia de sol.


Um violino na chana

e uma mulher fazendo-o

chorar.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 37)


Maçã da China, viajante persa, peregrina

nas cruzadas.

Assim despontaram laranjais no Sul da

Europa medieva.

Laranja, romã, toranja, laranjinhas -

- eu sou manga.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 39)


Calar essa voz

que no caos do mundo, dulcíssima e magoada,

não é senão um sopro

fora dos caminhos.


Recolher ao útero

quente e macio,

não pelo cordão,

perdido para sempre,

mas por essa voz

silenciada.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 43)


Como se estivesse em Poros a

festejar o regresso da armada.


Trêmula,


A neblina das ilhas

espelha-se nas águas límpidas do Egeu,

anunciando as oferendas dos pescadores

e os risos das mulheres.


A fada lua não conseguira naufragar os barcos.


Barcos são poemas

ancorados nos portos da história.


(Maria Alexandre Dáskalos, 2001, p. 46)

 
 
 

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