Análises entre os estudos pós-coloniais e o romance de Ytanajé Cardoso.
- Isadora Lopes

- 30 de mar. de 2024
- 2 min de leitura
Atualizado: 23 de nov. de 2024
Dando continuidade às análises do romance munduruku Canumã: a travessia (2019), esse texto visa abordar a reflexão do personagem Filipe sobre a importância da língua munduruku para o seu povo, durante os seus estudos acadêmicos na capital amazonense, Manaus, em conjunto com estudos voltados para o pós-colonialismo.
De acordo a escritora Ana Mafalda Leite (2016, p. 68 apud Mignolo, 2000; Santiago, 1978):
[...] As teorias pós-coloniais permitiram, com todas essas ramificações, o desenvolvimento de um pensamento crítico “liminar” de fronteira, de “entre-lugar”, que é a resposta epistémica do “subalterno” ao projeto eurocêntrico da modernidade. Ao invés de rejeitarem a modernidade para se recolherem num absolutismo fundamentalista, as epistemologias de fronteira redefinem a retórica emancipatória da modernidade, a partir das cosmologias locais.
Nesse viés, o pós-colonialismo é um lugar de questionamento da hegemonia de saberes, visto que as produções ocidentalizadas são consideradas superiores em relação às de grupos minoritários. Assim, pode-se perceber que a busca do personagem pelo conhecimento não indígena converge para o espaço da aldeia, uma vez que ele aplica o conhecimento acadêmico na sua vivência como nativo. Portanto, a questão não é ignorar o conhecimento do branco, mas entender que o conhecimento indígena é tão válido quanto.
A seguir, uma citação de Canumã; a travessia (2019):
“[...] felizmente, pude aprender um pouco da minha verdadeira língua, o que me causou grande estímulo em continuar com os sonhos de minha avó: o de que todo povo aprenda novamente a língua munduruku. Confesso que, quando criança, não entendia muito bem a importância da língua para um povo, mas minha maior professora me fez enxergar com minúcia a importância da língua na realização ou manifestação de um povo (p. 50).
Nessa passagem, evidencia-se que Filipe reconhece a importância da língua munduruku para o seu povo apenas na universidade, sendo isso um efeito das questões pós-coloniais. Também, a inserção do indígena no meio acadêmico na luta contra a colonialidade do poder, apesar de ser uma reflexão tardia do protagonista. Assim, há essa união entre os dois tipos de saberes, convergindo para uma conclusão importante para o protagonista.
Para concluir, segundo a pesquisadora Joana Passos (2016, p. 109):
[...] Refletir em termos pós-coloniais é portanto ir além dos modelos de raciocínio que herdamos de uma visão colonial do mundo, em busca do que surgiu de novo, de renovado, de diferente. [...]
Diante disso, o pós-colonialismo representa um processo de renovação, que vai além da visão eurocêntrica, que tenta sustentar uma hegemonia de saberes, bucando refletir sobre as consequências sociais e políticas desde a colonização até a atualidade.
Referências:
CARDOSO, Y.C. Canumã: a travessia. Manaus: Editora Valer, 2019.
LEITE, A. M. Pós-colonial/ismo: conceitos e conflitos. In: GARCÍA, F.; MATA, I. (orgs.). Pós-colonial e pós-colonialismo: propriedades e apropriações de sentido. Rio de Janeiro: Dialogarts Publicações, 2016. p. 65-70.
PASSOS, J. O pós-colonial e pós-colonialismos: repensar a Europa à luz do impacto do Sul global. In: GARCÍA, F.; MATA, I. (orgs.). Pós-colonial e pós-colonialismo: propriedades e apropriações de sentido. Rio de Janeiro: Dialogarts Publicações, 2016. p. 107-118.








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