Desafiar o silêncio
- Lethicia Bernardino
- 11 de set. de 2021
- 3 min de leitura
Atualizado: 13 de out. de 2021
[...] Pedem-me vigília sobre a natureza do mal e que por momentos deixe de cantar e lhes empreste a voz, porque os caminhos da poesia, essa meditação sobre o esquecimento, passam por aqui, como as mãos da tecedeira imitam o lento caminhar dos corpos celestes no céu que nos abriga. Pedem-me que grite enquanto tocam a vida em frente todos os dias, todas as noites.
(Paula Tavares, 2019, p. 49)
No lago branco da lua
lavei meu primeiro sangue
Ao lago branco da lua
voltaria cada mês
para lavar
meu sangue eterno
a cada lua
No lago branco da lua
misturei meu sangue e barro branco
e fiz a caneca
onde bebo
a água amarga da minha sede sem fim
o mel dos dias claros.
Neste lago deposito minha reserva de sonhos
para tomar.
(Paula Tavares, 1999, p.11)

As mães
A vida não é uma flor daquelas que abrem uma vez por ano e nos viram de perfume o sorriso e o sentido dos caminhos que se abrem em nós para começar todos os dias. Ser mãe é ser o centro do mundo viga de pé corrida pelos ventos. Entre as mães e a fúria é o corpo que se ergue e muro gravado das falas mais antigas de todas as que foram mães antes de nós e não se renderam, as que velaram pelo fogo na sua teimosia.
(Paula Tavares, 2019, p. 42)
As duas faces de Rwej an Kond
"A máscara tem duas faces: uma para o chefe, outra para o povo."
Explicação de Samukinji, autor de As duas faces de Rwej an Kond
Tornada Luéji pelos ambaquistas, esta princesa lunda (aruwund) ousou casar-se com Cibind Yirung (também chamado pelos embaquistas Cibinda Ilunga), o estrangeiro príncipe luba e portador da etiqueta real e de toda a sofisticação cultural que tornaria o reino e a sociedade lunda uma das mais complexas da antiga África Central. As duas personagens habitam os mitos e a história, a fundação da realeza sagrada, a fuga dos principais chefes e a travessia dos rios, a fundação de outros reinos e complexas sociedades que os historiadores tentam descobrir. É assim uma história de amor que está na origem da criação e desenvolvimento de estados, locais de pertença, estruturas de parentesco, organização de exércitos, migrações, transformação e transfiguração do poder.
Reza a tradição oral cedo fixada pelos ambaquistas, que a escreveram e contaram a quem sabia escrever, que um grande chefe Nkonda deixara o seu poder, com a concordância de seus ilustres pares, a uma de suas filhas, a bem comportada Rwej (ou Luéji), conhecedora da tradição, confiando-lhe o rukan (lukano para os embaquistas) o bracelete sagrado símbolo de toda a sabedoria lunda e do poder dos ancestrais. A vida decorreu sem sobressaltos para o povo dos Lundas até à chegada de um caçador luba, Cibind Yrung, entre todos os mais belo, com as suas tranças longas, seu porte elegante e pés perfeitos. Conhecedor dos mistérios do fogo e do ferro das Lundas até a chegada de um caçador Iuba, Cibind Yrung, entre todos o mais belo, com as suas tranças longas, seu porte elegante e pés perfeitos. Conhecedor dos mistérios do fogo e do ferro, cedo encantou Rwej com suas maneiras finas e com presentes e palavras de amor numa língua doce e antiga como a l;ingua das origens. Rwej recolheu o seu amado nos aposentos reais e adotou etiqueta, deixando que comesse longe do olhar dos outros para que nada contaminasse a vida do seu príncipe e senhor dos seus dias a partir dali. Confiou-lhe mesmo o bracelete sagrado nos dias em que, para cumprir os interditos, tinha que afastar-se do centro e resguardar-se do mundo.
Reza também a crônica que Rwej era estéril e que chamou a mais bela das amilombes, Kamong (sua escrava e sua irmã, prima diziam os embaquistas), para que fosse lunda o ventre que iria conceber o império Yav (o primeiro). Assim, entre tradição e modernidade se construiu uma nova sociedade onde a unidade dos opostos (lunda e luba) se instituiu como garante de uma nova ordem resultante da combinação dos princípios dos atubung (os ancestrais lunda) com a fecundidade e a inovação trazida por Ilunga e sua nova ordenação do cosmos. Uma história de amor resume assim todas as variáveis que iluminam o pensamento simbólico de várias sociedades da África Central que procuram entre passado e futuro (as duas faces de Rwej) encontrar equilíbrios perpetuando títulos, relações entre ascendentes e descendentes entre as origens e a modernidade, para que a luz possa emergir de Kasal Katok (a casa redonda ou a gruta inicial, mas também a pena branca e a luz) e ser o garante da paz e do amor.

(Paula Tavares, 2019, pp. 70-71)






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